Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor - Zé Miguel - Landscape & Travel Drawing, Map Design

Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor

Há uns meses atrás, para aí nos finais de Junho, o André Silva Santos pediu-me uns desenhos com motivos florais, para a imagem da sua nova curta metragem chamada “Sol Menor”, prestes a estrear no 33x Curtas de Vila do Conde em meados de Julho 2025, com produção da agenciapt_shorts.

Após uma conversa em que falamos sobre o filme e a importância do ambiente floral onde se desenlaça a narrativa, fiquei logo cheio de vontade de desenhar flores.

Embora o desafio tenha surgido numa altura de grande carga emocional, já a contar os dias e a sonhar com o início das férias, a vontade de desenhar foi mais forte. Era preciso desenhar um lugar em são João da Madeira, rodeado por hortênsias. A planta de jasmim tem um papel importante no filme, que por sorte estava em flor naquela época do ano e um lugar representado no filme, cheio de hortênsias. Era também necessário desenhar uma rama de laranjeira.

A few months ago, around the end of June, André Silva Santos asked me for some floral motif drawings for the visuals of his new short film called “Sol Menor,” which was about to premiere at the 33x Curtas de Vila do Conde in mid-July 2025, produced by agenciapt_shorts.

After a conversation in which we talked about the film and the importance of the floral environment where the narrative unfolds, I immediately felt the urge to draw flowers.

Although the challenge arose during a time of great emotional intensity, as I was counting down the days and dreaming of the start of my vacation, the urge to draw was stronger. I needed to draw a place in São João da Madeira, surrounded by hydrangeas. The jasmine plant plays an important role in the film, and luckily it was blooming at that time of year, and a place depicted in the film was full of hydrangeas. I also needed to draw an orange branch, which quickly created an excuse to visit my grandparents’ house and go to the countryside to find the perfect orange branch to draw.


Vista de um ambiente de Hortênsias junto ao Lavadouro Público de Fundo de Vila em São João da Madeira. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic Cristal 1,6 Multicolor 15, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Vista de um ambiente de Hortênsias junto ao Lavadouro Público de Fundo de Vila em São João da Madeira.
Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025.
Dupla página, com Caneta esferográfica Bic Cristal 1,6 Multicolor 15, 28x28cm, sobre caderno de desenho.

O desenho do lugar das hortênsias

Na primeira vez em que falamos, o André descreveu-me um lugar muito importante na narrativa do filme. Contava-me que ficava junto a uma rotunda num bairro residencial de São João da madeira, onde o protagonista estacionava o carro e conversava com o seu irmão. A rotunda situava-se num socalco elevado, com vista para a linha do comboio e um lavadouro público. A escadaria do socalco para o lavadouro público estava cheia de hortênsias em flor, roxas, lilases e cor-de-rosa, com tenras folhas verdes, num ambiente muito perfumado e fresco.

Aquela descrição trouxe-me imagens muito familiares de outro Verão há 5 anos, em que andei a desenhar vistas dos lavadouros públicos de São João da Madeira. Continuei a descrição a partir da deixa das suas palavras até nos apercebermos que estávamos a falar do mesmo lavadouro público. Curiosamente, em tempos diferentes, ambos tínhamos representado aquele lugar. Eu através do desenho, o André através do cinema. Tornou-se evidente de que estávamos na mesma página e este trabalho tinha pernas para andar.

Drawing the Hydrangea Place

The first time we spoke, André described a very important place in the film’s narrative. He told me it was near a roundabout in a residential neighborhood of São João da Madeira, where the protagonist parked his car and talked to his brother. The roundabout was located on an elevated terrace, overlooking the train line and a public washhouse. The staircase from the terrace to the public washhouse was full of blooming hydrangeas, purple, lilac, and pink, with tender green leaves, in a very fragrant and fresh environment.

This description brought back very familiar images from another summer 5 years ago, when I was sketching views of the public laundry washers of São João da Madeira. I continued the description from his words until we realized we were talking about the same public washhouse. Curiously, at different times, we had both represented that place. Me through drawing, André through film. It became evident that we were on the same page and this work had legs to stand on.


Detalhe 3 - Vista de um ambiente de Hortênsias junto ao Lavadouro Público de Fundo de Vila em São João da Madeira. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic Cristal 1,6 Multicolor 15, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Detalhe 3 – Hortênsias
Detalhe 1 - Vista de um ambiente de Hortênsias junto ao Lavadouro Público de Fundo de Vila em São João da Madeira. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic Cristal 1,6 Multicolor 15, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Detalhe 1 – Hortênsias
Detalhe 2 - Vista de um ambiente de Hortênsias junto ao Lavadouro Público de Fundo de Vila em São João da Madeira. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic Cristal 1,6 Multicolor 15, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Detalhe 2 – Hortênsias

Escolhi uma manhã de domingo para desenhar o lugar. A luz do Sol ainda não era muito intensa, e estava tudo calmo e silencioso. Só se viam de vez em quando uma ou outra pessoa que seguiam a linha do comboio a pé, sabe-se lá porquê. Era verão, haviam imensas flores para desenhar, e algumas ervas e palhas refletiam tonalidades de dourado. Procurei trazer esta impressão para o desenho. Mais tarde revisitei o desenho que tinha feito neste lugar outrora e com satisfação percebi que este ficou melhor. O corrimão metálico azul ofereceu ao desenho uma vibração muito própria do Verão. Sente-se o espírito deste lugar.

I chose a Sunday morning to sketch the place. The sunlight wasn’t too intense yet, and everything was calm and quiet. Only occasionally did you see one or two people walking along the train tracks, for reasons unknown. It was summer, there were countless flowers to draw, and some herbs and straw reflected golden hues. I tried to capture that impression in the drawing. Later, I revisited the drawing I had done in this place before and was pleased to find that this one was better. The blue metal railing gave the drawing a summery vibe. You can feel the spirit of this place.


Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor de um ramo de laranjeira em casa dos meus avós no Porto do Rio, Lobases, em Miranda do Corvo. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic 1,6 Azul, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor de um ramo de laranjeira em casa dos meus avós no Porto do Rio, Lobazes, em Miranda do Corvo.
Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025.
Dupla página, com Caneta esferográfica Bic 1,6 Azul, 28x28cm, sobre caderno de desenho. Ver no Instagram.

O Desenho da Laranjeira

O desenho da laranjeira criou logo um pretexto para visitar a casa dos meus avós e ir ao campo procurar o ramo de laranjeira perfeito para ser desenhado. Assim lá fui eu, de caderno de desenho debaixo do braço e de cadeira de madeira às costas, daquelas mesmo antigas, de pequena escala, que ainda estava esquecida à volta da mesa na adega do meu avô.

Saltei cercas e cancelas enferrujadas, com o entusiasmo de um cabrito que me fazia lembrar os verões da minha infância com os meus avós. Encontrei uma boa sombra, por debaixo de uma frondosa laranjeira, daquelas plantadas já pelos bisavós. Uma bela sombra, escura e fresca, que no pico do verão com o sol bem alto e forte, contrasta com a terra vermelha cor de fogo de Miranda do Corvo.

The Orange Tree Drawing

The drawing of the orange tree quickly became an excuse to visit my grandparents’ house and go to the countryside to find the perfect orange branch to draw. So there I went, sketchbook under my arm and a wooden chair on my back, one of those really old, small-scale ones that was still forgotten around the table in my grandfather’s wine cellar.

I jumped over rusty fences and gates, with the enthusiasm of a kid that reminded me of the summers of my childhood with my grandparents. I found a good shade under a leafy orange tree, one of those planted by my great-grandparents. A beautiful, dark and cool shade, which at the height of summer with the sun high and strong, contrasts with the fiery red earth of Miranda do Corvo.


Pormenor 1 - Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor de um ramo de laranjeira em casa dos meus avós no Porto do Rio, Lobases, em Miranda do Corvo. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic 1,6 Azul, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Pormenor 1 – Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor
Pormenor 2 - Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor de um ramo de laranjeira em casa dos meus avós no Porto do Rio, Lobases, em Miranda do Corvo. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic 1,6 Azul, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Pormenor 2 – Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor
Pormenor 3 - Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor de um ramo de laranjeira em casa dos meus avós no Porto do Rio, Lobases, em Miranda do Corvo. Desenho feito por José Miguel Carvalho Cardoso (Zé Miguel) em 2025. Dupla página, com Caneta esferográfica Bic 1,6 Azul, 28x28cm, sobre caderno de desenho.
Pormenor 3 – Desenhos Florais para Curta Metragem Sol Menor

Na zona de Miranda do Corvo há uma calmaria muito própria das tardes de verão durante o pico do calor, em que todos os bichos recolhem para se abrigarem do sol, não se vê vivalma. Uma calma só interrompida por vezes com o berro dos corvos “craaaaaaaá”.

Fui desenhado com calma, demorasse o tempo que demorasse, até estar feito, com as patas de trás da cadeira bem enfiadas na terra, para me poder inclinar muito para trás e ver os ramos que estavam acima de mim. Esquecendo o tempo, o trabalho, as preocupações, tudo. Parece que há qualquer coisa de terapêutico quando desenhamos árvores, flores e plantas. Entramos numa calma cuidadosa, em que cada folha é única no seu traço. Bem dizia Jhon Ruskin no seu livro “The Elements of Drawing” de 1857, que uma árvore não tem duas folhas iguais e que quando desenhamos as folhas, elas a caneta tem de vibrar, tal como elas vibram, tocadas pela brisa.

In the Miranda do Corvo area there is a very particular calmness of summer afternoons during the peak of the heat, when all the animals retreat to shelter from the sun, you don’t see a soul. A calm only occasionally interrupted by the cawing of the crows “craaaaaaaá”.

I drew calmly, taking as long as it took, until I finished, with the back legs of the chair firmly planted in the ground so I could lean back and see the branches above me. Forgetting time, work, worries, everything. It seems there’s something therapeutic about drawing trees, flowers, and plants. We enter a careful calm, where each leaf is unique in its stroke. John Ruskin rightly said in his book “The Elements of Drawing” from 1857 that no two leaves are alike on a tree, and that when we draw leaves, the pen must vibrate, just as they vibrate when touched by the breeze.